Madalena:
Como é que consigo? Porque é que restam tantas memórias? Porque é que não saís de uma vez por todas de dentro de mim?
Dei-te tempo, tanto tempo! Amava-te tanto! Como posso ainda imaginar um futuro juntos, que nos seja comum? Estragas-te tudo, não te lembras? O mesmo abraço que me deixava segura, magoou-me, apertou demais. Quase me sufocou. “Quando a gente gosta, é claro que a gente cuida.” Lembras-te?
Quis-te como nunca desejei ou quis alguém. Estúpida, ainda quero! Mas não quero todos os problemas de volta, és complicado demais. Não quero ter de te partilhar com nada, nem impor-te decisões. Senti que não cabia na tua vida e amar-te não bastava!
Como amava o calor da tua pele, a tua respiração no meu pescoço, os abraços que me envolviam e resgatavam do mundo. Como pude ser tão parva? Como é que não percebi, que nunca serias só meu?
Queria ter filhos teus, a que daríamos nomes que já tínhamos escolhido! Queria perder-me em ti. Tremi da primeira vez que nos amámos. Tola! Dei o meu melhor, e queria o teu melhor, o teu todo. Queria voltar a adormecer contigo sob as estrelas da praia e acordar com os teus beijos salgados e molhados do mar. Ralhar-te porque me pingavas de água gelada, enquanto te sacudias como um miúdo. Queria que Ribeira D’Ilhas fosse para sempre. Ver-te remar ao longe sobre o mar, ver-te rasgar as ondas num bailado quase que sincronizado. Orgulhar-me novamente por te ver sair da água em direção a mim. Vinhas sempre. Como um guerreiro após uma batalha, com a tua armadura de neopreme a escorrer restos pingados de uma batalha. Na mão trazias a arma com que rasgaste e esventras-te as ondas. Vinhas, e era sempre para mim. Nessas alturas sentia-me única.
Queria poder voltar a ir contigo a Nova York. Voltar a fazer aquela corrida no Central Park, ver-te a alimentar os esquilos, com os olhos a brilhar. Parecias uma criança. Foi a nossa lua-de-mel antecipada, a única altura em que me pareces-te só meu.
Segui outro caminho! Doías-me demais. Encontrei outro sentido, tu fazias-me mal. Encontrei outra pessoa, que me faz melhor, ou pelo menos diferente. Partilhei com ela outras viagens, outros rumos. Sorri, dei gargalhadas. Tenho pena que não possas partilhar desta felicidade comigo. Sinto que te traio, ou que pelo menos traio, ou retraio, um vazio no peito.
Queria mostrar-te Paris, Londres, as praias a perder de vista na Indonésia. Dar-te as ondas que vi. Sempre que as vi, faltaste-me, estava habituada demais a ver-te nas ondas na minha frente. Tu não estavas lá. Disseram-me que percorrias o México em busca de ondas infindáveis e spots desconhecidos. Queria sentir-te ali! Senti que traia a pessoa com quem partilho a vida e agora os meus, que já foram nossos, sonhos.
Sou, e estou feliz agora. Já não tenho medo que me esperes no escuro. Sinto-me segura, com porto de abrigo. Mas permanece em mim um medo, de te encontrar, de nos cruzarmos, e tremerem-me as pernas, faltar-me a voz. Querer partilhar contigo a minha felicidade e não conseguir. Tenho medo de te magoar, por nada ser capaz de dizer. Dizer-te que está tudo bem, nada se perdeu, e o passado fará sempre parte das nossas memórias, será sempre uma parte de nós, e não podemos apagar quem somos. Acho que morro se te vir!
EU


