O quarto era escuro, sem janelas. Tinha sempre um aroma a
baunilha, a coco e a mar. A televisão era pequena, minúscula mas também dela
nunca senti falta. Servia de luz de fundo, ou de candeeiro improvisado. No chão
um cinzeiro, normalmente cheio dos restos mortais de momentos de prazer. Na
cama lençóis listados, que lembravam antigas barracas de praia. No ar? Um
cheiro a amor e paixão apressada, a noites de suores, a abraços apertados e por
vezes trémulos. O tecto era alto, as
paredes de branco esquecido.
Na porta da casa, ferrolhos envelhecidos e batentes em forma
de punho. Camadas de tinta envelhecida e gasta, sobre a madeira sólida. Nas
escadas, em caracol quadrangular, uma silhueta a subir na minha frente. Tantas
vezes desejei que as escadas fossem eternas, para eternamente apreciar a vista,
a silhueta amada, desenhada nas calças normalmente de ganga. Dava mil vidas
para saborear novamente as fracções de tempo que caminhei atrás de ti, sabendo
que o nosso destino era o mesmo.
Foram eternos os momentos em que adormeci nos teus cabelos,
e quis que fossem eternos os momentos em que te olhei enquanto dormias. Apreciei
cada segundo, como se já tivesse a certeza que nunca irias ser completamente
minha. Como se pode ser de alguém? Eu seria teu, se o quisesses se me
deixasses. Fundir-me-ia em ti se fosse capaz.
Depois de ti… ficou um vazio eterno que nunca mais soube
preencher. Foi contigo a essência e o âmago de todos os sentimentos. Depois de
ti… fiquei eu.
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