Saturday, March 16, 2013


O quarto era escuro, sem janelas. Tinha sempre um aroma a baunilha, a coco e a mar. A televisão era pequena, minúscula  mas também dela nunca senti falta. Servia de luz de fundo, ou de candeeiro improvisado. No chão um cinzeiro, normalmente cheio dos restos mortais de momentos de prazer. Na cama lençóis listados, que lembravam antigas barracas de praia. No ar? Um cheiro a amor e paixão apressada, a noites de suores, a abraços apertados e por vezes trémulos. O tecto era alto,  as paredes de branco esquecido.

Na porta da casa, ferrolhos envelhecidos e batentes em forma de punho. Camadas de tinta envelhecida e gasta, sobre a madeira sólida. Nas escadas, em caracol quadrangular, uma silhueta a subir na minha frente. Tantas vezes desejei que as escadas fossem eternas, para eternamente apreciar a vista, a silhueta amada, desenhada nas calças normalmente de ganga. Dava mil vidas para saborear novamente as fracções de tempo que caminhei atrás de ti, sabendo que o nosso destino era o mesmo.
Foram eternos os momentos em que adormeci nos teus cabelos, e quis que fossem eternos os momentos em que te olhei enquanto dormias. Apreciei cada segundo, como se já tivesse a certeza que nunca irias ser completamente minha. Como se pode ser de alguém? Eu seria teu, se o quisesses  se me deixasses. Fundir-me-ia em ti se fosse capaz.
Depois de ti… ficou um vazio eterno que nunca mais soube preencher. Foi contigo a essência e o âmago de todos os sentimentos. Depois de ti… fiquei eu.  

Thursday, March 7, 2013


Finalmente descalço-me! Piso a chão frio de terra e areia, arrepia-se-me a pele e o couro cabeludo. Encho o peito numa inspiração que quase traz a imensidão do Mar à minha alma. Ouço a explosões de ondas e água e o borbulhar das espumas rendilhadas do Mar. Pego-te na mão, e quase te arrasto: -Anda!!! Como se nunca tivesses visto o Mar! Mas o meu coração está a mil, sou eu. Eu que tenho sempre a sensação que quando vejo o Mar é sempre pela primeira vez, é sempre diferente, nunca é o mesmo. Como alguns animais marinhos, muda de cor e de forma, de estados de espírito até.

Os meus pés e pernas enterram-se na areia das dunas, enquanto te arrasto duna acima, presa pela mão. O céu está cinzento zangado, e é somente rasgado pelo branco das gaivotas que lutam no vento norte. Se calhar chove! Melhor seria. Não imagino, nem me lembro de nada mais mágico e perfeito, do que estar dentro de água enquanto chove torrencialmente. Desta vez não vou para dentro de água e sempre podemos abrigar-nos no bar vazio da praia.

Enfim o mar! Agitado numa revolta que tenta esmagar as areias que sob ele se põem. Cinzento e também salteado de brancas espumas que parecem cordeiros espalhados sobre a sua imensidão. Estou estático, paralisado e hipnotizado, ainda te seguro a mão com força, e estamos silenciosos os dois no topo da duna.
-Vamos? Perguntas-me. E caminhamos lentamente, descendo a duna em direcção ao mar. Do céu começam a cair pequenas gotas de chuva, como que num baptismo renovado. Como que uma oferenda a este recomeçar. Em ti, no mar, como se o universo, numa simbiose perfeita, tivesse alinhado todo este momento.

Chega-nos a água aos pés, e quase que instintivamente, recuamos um passo. Sei que é este o realizar de todo um momento que não poderia ser mais perfeito. Levanto-te agarrada pela cintura e beijo-te longamente, num beijo com sabor a morango pastilha e a mar. O mar? Fundiu-se em nós no beijo, entrou-me pelos pés, encheu-me o corpo e a alma, que agora já te posso dar neste beijo eterno.
    
Um dia… vai ser assim. 

Friday, March 1, 2013

"Why didn't you write me? Why? It wasn't over for me, I waited for you for seven years. But now it's too late." - Allie