
Maria Mel encostou a testa à janela fria e resmungou algo
inaudível. O Inverno parecia eterno e o seu humor estava cinzento como o céu
que ela espreitava pela janela do seu quarto. Procura desesperadamente o Sol.
O seu semblante demonstra que o seu coração está pesado, talvez até magoado. O
seu olhar está claramente perdido lá atrás algures no passado. É altura de
fazer retrospectivas, diz a sociedade. Optou por desta vez obedecer.
Procura as memórias felizes, vasculhou e vasculhou. Porque será que as memórias
desagradáveis ocupam tanto espaço que as boas ficam como que subterradas no
fundo no nosso subconsciente? Sentiu-se frustrada e ingrata. É claro que tinha
recordações lindas. De repente o seu olhar mudou; os olhos abriram-se e
iluminaram-se! Sim, lembrou-se das suas viagens, das suas aventuras e
respectivas lições. Lições… ora bolas, lá se foi a alegria novamente. O olhar
escureceu e o queixo estremeceu. - Não, não vou chorar –, pensou quase
verbalizando. – Já chorei e já limpei esta tralha! – Pelos vistos não, Maria
Mel.
Ela ainda tem gravado no seu ADN a crença que as guerreiras não choram. Quantas
vidas levaria a limpar este disparate? Quantas vidas levaria a ter coragem de deitar
a cabeça no colo de alguém e chorar livremente? Quantas vidas levaria a
aprender a pedir ajuda? A dizer que é frágil? A gritar bem alto o que lhe vai
na alma, o que gosta e o que não gosta? Porque será que só confia no invisível,
nos seus amados deuses, nos devas, nas suas fadinhas e elfos? Porque é que a
maldade humana a assusta tanto e porque é que, tantas vezes, se sente
encurralada nesta existência? Talvez tenha reminiscências de vidas num mundo em
que a alegria, a paz, a lealdade e o Amor imperavam. As saudades que, tantas e
tantas vezes sente sem saber do quê, pode ser prova disso. Essa profunda
saudade chega a ser dolorosa, deixando um rasto de nostalgia que a acompanha
por dias.
Sim, talvez, mas as memórias de luta, de sobrevivência de miséria humana, de
perdas também a marcam. O vazio que, outras tantas vezes sente, não seria
também prova disso?
É do inverno! -, escusou-se ela, tentando afastar estes pensamentos. – Mas o
Verão nunca mais chega?! – resmunga.
Agarra o primeiro casaco que encontra e a passo rápido encaminha-se para o seu
carro. Pela ansiedade que emana quase que se pode prever onde vai. Vai aos seus
refúgios; ao mar mas tem que passar pela sua serra preferida onde abraçará as
árvores descalça. Na praia, deixará ficar estas emoções que já não são suas.
A verdade é que resulta sempre. Volta sempre mais leve e mais consciente da sua
missão na Terra, dos objectivos que já concretizou, dos que ainda não
concretizou, mas que sabe, sem sombra de duvida, que irá alcançar. O seu Amor à
Natureza tem um efeito mágico sobre ela.
Ao chegar, agradece à Mãe Yemanjá a cura que acontece sempre e rasga um sorriso
feliz.
À beira mar, ela abre os braços para deixar entrar o Amor da deusa do mar e das
ondas. O seu peito expande-se para deixar entrar energia renovada e carregada
de esperança.
Maria Mel decide que está na hora de largar a pesada pele de vítima. Lembrou-se
das palavras do seu mestre que constantemente lhe diz que, enquanto não se
libertasse do passado, jamais teria espaço para o novo. E ela quer o novo, ela
quer muito o novo!
Naquele momento, poderosamente mágico, decide que o seu futuro seria o que
decidisse Entra devagar no mar frio, fecha os olhos e vê-se no cimo de uma
montanha, vestida de branco, com o mar em baixo de um azul profundo que se
funde com o céu tornando-o infinito Ela que fazer parte desse infinito. Num
impulso incontrolável, Maria Mel mergulha no mar que lhe gela o corpo, mas que
lhe liberta a mente.
Sente a bênção que este momento representa e abre um sorriso ainda mais largo
que ilumina os seus olhos tanto quanto a sua alma.
Maria Mel baptizou-se no seu amado mar reiterando a decisão de ser feliz aqui
na Terra. E foi.