Monday, January 14, 2013
Sentava-me no escuro, nas escadas de madeira fria, inebriado pelo álcool, esperava...
O ar era sempre pesado, cheirava a madeiras centenárias, a tinta velha e a mofo. Odeio prédios velhos. Sempre odiei, parecem carregar fantasmas de mil vidas, provocam-me desconforto.
Mas esperava sentado no escuro. Nunca sei bem o que esperava, porque nunca encontrei as palavras para o dizer. Como naquele Verão dos anos 80.
Os anos 80 foram os anos de mar e praia. De Inverno e de Verão. Dormia nas noites de Verão na praia, muitas vezes tendo por único agasalho a toalha de praia e a certeza de que seria um dos primeiros a estar no mar. Era-mos a maior parte das vezes um grupo de vários rapazes e algumas raparigas. Fazia-mos fogueiras e tocava-se guitarra sob as estrelas e a lua.
Havia uma rapariga, a tal, de pele muito morena e cabelos escuros, linda! A Leonor. Eu estava apaixonado por ela desde a primeira vez que a vi, era irmã de um amigo meu das surfadas. Tentei sempre ser o mais discreto possível era tímido demais para tentar o que quer que fosse. Sentia dentro de mim que ela era "areia a mais para a minha camioneta". Até àquela noite.
Tinham-me acabado os cigarros, e sem que eu nada pergunta-se, ofereceu-se, ela, para me levar na "acelera" de uma amiga comum à Costa, ao centro da Vila. Passaria-mos em casa da Madalena, para levar casacos emprestados, que a noite estava fria, e rumaria-mos à Vila.
A viagem de São João da Caparica, até ao centro da Costa, pareceu-me eterna. Os cabelos dela tocavam-me o rosto, e eu viajava abraçado nela em êxtase total.
Comprámos os cigarros... - Queres passear no Pontão? Perguntou-me. Se queria? Era um sonho tornado realidade, eu e ela sob a lua, sozinhos.
Percorremos de mota o Pontão, e parámos na praia do Norte. Juntos sentámos-nos de frente para o mar, lado a lado. Eu esfregava as mãos, geladas pela pendura na mota. - Dá-me as tuas mão que eu aqueço-as! Disse-me, e segurou-me as mãos entre as dela. Senti borboletas no estômago e fiquei mudo. Ficá-mos assim uns dez minutos, e eu não disse nada? Nada!
Acho que nessa noite, levei todos os sinais, e perdi todas as oportunidades! Uma semana depois começou um namoro de Verão com um outro tipo do nosso grupo, e desisti dela para sempre!
Leonor, se algum dia leres isto, sabe que por mais de um ano fui apaixonado por ti, e nunca te soube dizer.
Às vezes é só mesmo o que falta, as palavras certas.
JRM aka EU
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