Monday, December 24, 2012


O meu eu!

Faltam-me as letras, as letras colocadas a formar palavras, e palavras que construam frases. Falta-me a expressão, o adjetivo, o significado. Quero expulsar de dentro de mim as palavras, e nesse esforço, sinto um aperto no peito e o rasgar da minha própria alma!
Esqueci-me de mim por tempo demais, e já quase não me lembrava de quem era, donde vim, o que conquistei, o que amo! Passei tempo demais a viver a vida dos outros, não a deles, mas a minha moldada à deles. De todos. Esqueci-me por tempo demais da pessoa mais importante: Eu.
O que eu quero, o que eu gosto, o que me apetece, o que me diverte, o que me aborrece. Tudo para ser o que esperavam que fosse. Agora sinto-me sufocar dentro deste eu, que não sou eu! Como é que lhes digo agora? Que não gosto, que não quero, que basta? Apanhei o comboio mais fácil, aquele onde não tinha de me impor, onde era mais fácil, onde era ator de um filme que nunca foi meu!
Amo o mar, as montanhas selvagens e desbravadas, o vento no rosto, a salmoura na pele, olhar o horizonte sentado sobre a prancha, e sobre o mar. Amo a liberdade, a livre escolha, a não dependência, o poder ir fazer, quando quiser, às horas que quiser e quando me apetecer. Adoro um bom vinho tinto, num copo muito grande, e um branco leve gelado, no calor do Verão.
Odeio compromissos, horários, pessoas fúteis, pessoas pouco inteligentes, conversas sem sentido e frases que não dizem nada. Odeio camisolas que picam a pele, calças de ganga acabadas de lavar, chinelos, robes e outras roupas desconfortáveis. Odeio pelos, todas as pilosidades em geral. É moda barba grande, azar, faz-me comichão! O mais que aguento são dois dias sem fazer a barba.
Odeio meninas certinhas e senhoras parvinhas! As meninas porque de certinhas só têm a embalagem, e as senhoras porque por parvas, só passam aos olhos dos mais cegos. Odeio viajar à pendura, velocidades arriscadas num jogo de roleta russa com o trânsito! Odeio discotecas onde as pessoas não se ouvem umas às outras, onde não há uma fuga para conversar, só. Odeio ressacas, e juro sempre que foi a última, mas só me arrependo das que não valeram a pena.
Sabem que mais? Adoro segurar a porta para as senhoras entrarem, dar-lhes passagem, ser bem-educado, e manter o nível. Porquê? Porque não é preciso ter para se ser! Adoro cuidar-me, e sentir-me bem comigo por isso!
Vou voltar a ser eu, cansei-me de ser os outros, se vou perder alguém? Muito provavelmente. Há com toda a certeza quem não vá gostar de quem sou na realidade. Sabem que mais, também os aturei tempo demais, e fico a ganhar. Ganho quem sou, e isso ninguém pode alterar.

JRM aka EU    

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