
O meu eu!
Faltam-me as letras, as letras colocadas a formar palavras,
e palavras que construam frases. Falta-me a expressão, o adjetivo, o
significado. Quero expulsar de dentro de mim as palavras, e nesse esforço,
sinto um aperto no peito e o rasgar da minha própria alma!
Esqueci-me de mim por tempo demais, e já quase não me
lembrava de quem era, donde vim, o que conquistei, o que amo! Passei tempo
demais a viver a vida dos outros, não a deles, mas a minha moldada à deles. De
todos. Esqueci-me por tempo demais da pessoa mais importante: Eu.
O que eu quero, o que eu gosto, o que me apetece, o que me
diverte, o que me aborrece. Tudo para ser o que esperavam que fosse. Agora
sinto-me sufocar dentro deste eu, que não sou eu! Como é que lhes digo agora?
Que não gosto, que não quero, que basta? Apanhei o comboio mais fácil, aquele
onde não tinha de me impor, onde era mais fácil, onde era ator de um filme que
nunca foi meu!
Amo o mar, as montanhas selvagens e desbravadas, o vento no
rosto, a salmoura na pele, olhar o horizonte sentado sobre a prancha, e sobre o
mar. Amo a liberdade, a livre escolha, a não dependência, o poder ir fazer,
quando quiser, às horas que quiser e quando me apetecer. Adoro um bom vinho
tinto, num copo muito grande, e um branco leve gelado, no calor do Verão.
Odeio compromissos, horários, pessoas fúteis, pessoas pouco
inteligentes, conversas sem sentido e frases que não dizem nada. Odeio
camisolas que picam a pele, calças de ganga acabadas de lavar, chinelos, robes
e outras roupas desconfortáveis. Odeio pelos, todas as pilosidades em geral. É moda
barba grande, azar, faz-me comichão! O mais que aguento são dois dias sem fazer
a barba.
Odeio meninas certinhas e senhoras parvinhas! As meninas
porque de certinhas só têm a embalagem, e as senhoras porque por parvas, só
passam aos olhos dos mais cegos. Odeio viajar à pendura, velocidades arriscadas
num jogo de roleta russa com o trânsito! Odeio discotecas onde as pessoas não
se ouvem umas às outras, onde não há uma fuga para conversar, só. Odeio
ressacas, e juro sempre que foi a última, mas só me arrependo das que não
valeram a pena.
Sabem que mais? Adoro segurar a porta para as senhoras
entrarem, dar-lhes passagem, ser bem-educado, e manter o nível. Porquê? Porque
não é preciso ter para se ser! Adoro cuidar-me, e sentir-me bem comigo por isso!
Vou voltar a ser eu, cansei-me de ser os outros, se vou
perder alguém? Muito provavelmente. Há com toda a certeza quem não vá gostar de
quem sou na realidade. Sabem que mais, também os aturei tempo demais, e fico a
ganhar. Ganho quem sou, e isso ninguém pode alterar.
JRM aka EU
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