Diz-se
que o passado é um fardo grande demais para se carregar, quando se anseia a
felicidade plena.
Fora
de ti, só me sinto feliz na sua total plenitude, revivendo o passado, vezes e
vezes sem conta. Só viajando para o passado, o nosso passado, estou bem. Mas
como posso eu viajar para algo que já não existe? O passado é isso, deixa de
ser, não existe depois de o ser. Viajo dentro de mim, para encontrar o que
restou de ti. Lembranças, esboços na memória, pedaços soltos de ti e de nós.
Mas já não és tu! É o que tu eras, o que foste, o que fomos. Tudo se alterou.
Estarás diferente? Eu estou seguramente diferente, mudaram-se-me os objectivos,
a forma como vejo tudo o que me rodeia, a maneiro como sinto tudo. Tu estarás
talvez igual ao meu eu de agora. O ser humano tem essa imutável característica,
está em constante mutação, ora para se adaptar, ora para sobreviver em
circunstâncias diferentes.
Disse-te
mais do que uma vez que te amava, escrevi-o, cantei-o, exprimi-o de todas as
maneiras que sabia. Disseste-me tu o mesmo. Porque não sobrevivemos então?
Porque não era o bastante, não era o suficiente? Passou-te o amor? Julgo que
não. Dedicámos tempo demais a amar-nos, e muito pouco tempo a conhecermos-nos
realmente. Julgo que só falámos uma vez, de ti, de mim, do que éramos ou
julgávamos ser. Mas ninguém se conhece realmente por conhecer os hábitos os
gostos, e o passado de outrem. Só
falámos uma vez, nesse Inverno, naquela praia.
Hoje
tomei uma decisão. Uma grande decisão.
Vou
finalmente deixar-te ir. Deixar-te partir, e desapegar-te de mim. Viciei-me no
sofrimento de não te ter, e tornou-se uma droga, e inevitavelmente todos os
dias volto a ti. Volto ao que já não és, volto às memórias que me consomem e me
desviam da felicidade que também eu deveria sentir, na sua plenitude. Se calhar
não fui feito para ser feliz! Mas solto-te de mim. Não faz sentido viver arrastando
esta âncora pesada, estas amarras que já se perderam no tempo.
Desejo
do fundo, do meu mais intimo ser, que sejas sempre feliz. Que o sol brilhe em
todos os teus dias, que ames e sejas amada como mereces, como o desejo para mim
ou até mais. Vou guardar-te um abraço fechado, para te entregar algum dia. Vou
guardar-te nas minhas memórias, no corredor onde guardo tudo o que marcou a
minha vida, mas que já não faz parte dela, já não me pode atingir ou tocar. Sim
no corredor onde se vão buscar histórias para contar aos netos e aos filhos.
Espero
que te saibam amar! Amei-te muito…
EU
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