Encostado numa parede fria, com um dos pés apoiados nela. A
parede é velha, deve ter dezenas de anos, e outros tantos de cartazes e
grafitis sobrepostos nela. Cheira a papel velho e molhado.
Uma velha viela de Lisboa, uma qualquer, desde que as casas
tenham vasos nas varandas e janelas com naperons. Onde os candeeiros sejam
antigos, e o chão seja de calçada negra.
A luz amarela do candeeiro ilumina-me o rosto suavemente. É
noite, é Outono e está frio. Deslizo os dedos entre os cabelos amarelados pela
luz. Não passa ninguém, não se vê ninguém. Oiço John Mayer nos headphones, “Your body Is a Wonderland”, e não oiço
mais nada. O verde dos olhos enche-se em brilho molhado. Uma pequena
gota de lágrima escorre-me no rosto, lenta e suavemente, como uma caricia.
Estou à tempo demais nesta parede! Preso. Acorrentado há
dezenas de anos. Preso neste passado. Os cartazes gastos e corroídos pelo
tempo, são as minhas memórias, o meu passado. Cada um deles, um episódio, uma
parte que mereceu registo, ora coloridos ora em tons cinza esbatidos.
Os grafitis são descobertas, são mais recentes. Pintados a
negro sobre a parede, são descobertas absolutas, irrefutáveis. Coloridos com
escritas e desenhos geométricos, numa escrita incompreensível, são as
descobertas ainda não materializadas, as não racionais.
Chove devagar, como que num filme as gotas caem em câmara
lenta. Cada gota que caí sobre mim ou sobre a parede desvanece as tintas, os
passados. Cheira a verde e a terra agora. Cheira a renovação. Fundem-se as águas
em mim, como que em renovação. Entranha-se-me a água na pele, e as gotas fazem
parte do meu ser.
Tu vinhas, em slow motion, sentia-te os passos na pele.
Passavas e esticavas a mão para tocar a minha, eu esticava o braço para te
tocar também, mas nunca te alcançava. Depois desvanecia-te a imagem, fundias-te
no escuro da noite. Passavas tantas vezes!
Depois fez-se dia, amanheceu neste universo. Do longe veio o
cheiro a mar, o sol inundou-me a pele e impeliu-me a fazer caminho. Desci o pé
para o chão, desencostei-me, segui viagem. Caminho em direção ao fim da rua
longa. Nas costas? Nas costas trago pedaços dos antigos cartazes.
EU

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