Thursday, December 6, 2012


A parede

Encostado numa parede fria, com um dos pés apoiados nela. A parede é velha, deve ter dezenas de anos, e outros tantos de cartazes e grafitis sobrepostos nela. Cheira a papel velho e molhado.

Uma velha viela de Lisboa, uma qualquer, desde que as casas tenham vasos nas varandas e janelas com naperons. Onde os candeeiros sejam antigos, e o chão seja de calçada negra.

A luz amarela do candeeiro ilumina-me o rosto suavemente. É noite, é Outono e está frio. Deslizo os dedos entre os cabelos amarelados pela luz. Não passa ninguém, não se vê ninguém. Oiço John Mayer nos headphones, “Your body Is a Wonderland”, e não oiço mais nada. O verde dos olhos enche-se em brilho molhado. Uma pequena gota de lágrima escorre-me no rosto, lenta e suavemente, como uma caricia.
Estou à tempo demais nesta parede! Preso. Acorrentado há dezenas de anos. Preso neste passado. Os cartazes gastos e corroídos pelo tempo, são as minhas memórias, o meu passado. Cada um deles, um episódio, uma parte que mereceu registo, ora coloridos ora em tons cinza esbatidos.

Os grafitis são descobertas, são mais recentes. Pintados a negro sobre a parede, são descobertas absolutas, irrefutáveis. Coloridos com escritas e desenhos geométricos, numa escrita incompreensível, são as descobertas ainda não materializadas, as não racionais.

Chove devagar, como que num filme as gotas caem em câmara lenta. Cada gota que caí sobre mim ou sobre a parede desvanece as tintas, os passados. Cheira a verde e a terra agora. Cheira a renovação. Fundem-se as águas em mim, como que em renovação. Entranha-se-me a água na pele, e as gotas fazem parte do meu ser.

Tu vinhas, em slow motion, sentia-te os passos na pele. Passavas e esticavas a mão para tocar a minha, eu esticava o braço para te tocar também, mas nunca te alcançava. Depois desvanecia-te a imagem, fundias-te no escuro da noite. Passavas tantas vezes!

Depois fez-se dia, amanheceu neste universo. Do longe veio o cheiro a mar, o sol inundou-me a pele e impeliu-me a fazer caminho. Desci o pé para o chão, desencostei-me, segui viagem. Caminho em direção ao fim da rua longa. Nas costas? Nas costas trago pedaços dos antigos cartazes.

EU   

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