Saturday, December 20, 2008


Para o Chinês...


Soube hoje que tinhas partido, para sempre. Soube hoje que se extinguiu a vida em ti. Soube que estiveste assim, só e perdido como um qualquer objecto sem dono para o reclamar. 15 dias esperas-te para que te reconhecessem numa morgue fria. Velho e amigo de sempre, não merecias! Nem morrer só, nem esperar que te reclamassem.

Viveste depressa demais, e o fascínio e vicio nunca te deviam ter levado. Percebeste, ou nunca percebeste, tarde demais que não tinhas de provar nada a ninguém, que a felicidade não se compra por atacado em pacotinhos de pó. Compra-se em pacotinhos, mas dura pouco e o preço a pagar é maior do que tudo.


Amanhecia a praia, na primeira vez, pranchas novas, a estrear, com cheiro a borracha fresca, e um mar maluco, doido por dar porrada a dois massarros de primeira apanha. 1987. Levá-mos imensa porrada, pelo menos eu levei, mas valeu a pena, por todos os momentos de êxtase em todas as surfadas. Eras tu que estavas lá comigo nessa primeira vez, e foste tu que estiveste comigo em mil outsides de mar maluco. Infelizmente saíste antes da surfada acabar. Vi-te à uns 18 meses, já no inside, e já não remavas para o outside ! Fugias da vida, e da realidade, e como gostaria de te poder ter ajudado a remar contra os "Setes". Tentei, muitos tentaram, mas tu nunca tentaste o suficiente... e partiste.


Vera e Verónica, duas gémeas fantásticas. Conhecíamos-as duma matine qualquer. Desta vez levamo-las à praia. Há lá coisa mais romântica do que levar uma miúda gira à praia de Inverno. Com o grande privilégio de nos poderem ver surfar! Pois é, era Inverno, e estavam umas marés vivas daquelas que cospem surfistas, ou para alto mar ou para a areia. As ondas eram calhaus entre os dois e os três metros.

- Eu não entro! Disse-te, mal chegámos e vi aquela máquina de lavar.

Mas tu tinhas de ir, tinhas de entrar, e dez minutos depois, voltavas, com um dente lascado, o lábio inchado, e a honra ofendida pelos escadotes de espuma. A tareia foi monumental, valeu-te a Vera, que a Verónica estava comigo, para te lamber as feridas e o lábio inchado.


Foste e serás sempre um grande amigo, por todos os momentos que não partilhei. Não haveria blogue suficiente! De todas as vezes que vir e enfrentar o mar, vou recordar-me sempre de ti. De todas as vezes que cavalgar uma onda, parte dela será tua. Vais estar lá sempre, no mar, sentado na prancha, á espera de um "Sete" e da onda maior para disputar comigo.

Partiste cedo demais... mas não te esqueço, um ultimo grande "sete" para o CHINÊS


Friday, February 15, 2008

O "até sempre"


Hoje um velho amigo de sempre, pôs-me ao corrente de algo que eu nunca julguei pudesse causar em mim um tão grande turbilhão de sentimentos. Amanhã fecha o "Cosmos", pelo menos na sua versão original. Fecha o bar, e reabre um restaurante que em tudo se afasta do mítico "COSMOS" bar/restaurante, e tem de ser escrito assim porque os dois espaços sempre foram "unos" em todos os sentidos. Senti que perdia alguém muito próximo, que perdia um pedaço, que amputavam parte de mim para sempre. Só vão restar as recordações, muitas, de felicidade, imensas, de tristeza, algumas. Acima de tudo vão restar boas recordações, momentos fantásticos, quase míticos, festas loucas em que sempre valeu quase tudo. Amores e desamores, mas muitos mais amores. Amigos grandes para sempre, pois há momentos que pela sua enormidade, ao serem vividos com outras pessoas, nos ligam para sempre a elas. Há momentos eternos que já mais serão esquecidos, são momentos Cósmicos. Lembro-me de um texto que escrevi, em um dos convites de Réveillon, impresso centenas de vezes, que falava de um velho marinheiro e da sua barca, do seu esforço a remar de encontra a corrente, rasgando a noite para encontrar "bom porto", para vir ali prender as amarras, à Doca de Santo, em frente ao Pavilhão 5. Agora é também ele que parte, o velho marinheiro. Até sempre velho amigo, companheiro de mil noites, amanhã estarei contigo a celebrar o último adeus.

Saturday, September 8, 2007


Saturday, May 26, 2007


A brisa é quente. É sempre quente. Abraça-me como se eu não pudesse fugir-lhe, e é Verão. É sempre Verão. É mais uma noite igual a outras tantas. É sempre Lisboa à noite, ou no Bairro Alto, ou na 24 de Julho, ou nas Docas e em Santos. As bebidas também pouco mudaram, ou é Gin Tónico (Bombay Shaffire s.f.f!), ou são shots de tequilha rasca com sal e limão, ou cerveja (Corona com lima, se houver!?!). Já enjoei à muito os vodkas com sumos de todos os gostos, e a porra do whisky sabe-me sempre a madeira podre.
Os anos passam, mas a repetição dos momentos volta sempre, como um "dejávu" triste num drama cinematográfico.
Olho o céu negro e procuro a lua, e fico feliz por instantes num consolo infantil e primário. Sei que nesse preciso momento também lá estás, algures, não sei bem onde... mas debaixo da mesma lua. Vou olhando as luas por já não te ter. Os anos passam e tu vais-te com a lua. Não de forma definitiva. Fundes-te antes com o seu brilho, e dás lugar a outra pessoa. Também a hei-de procurar, debaixo doutra lua, a mesma.
Três brilhos tem a Lua... a quem deixo um sorriso sempre que a brisa quente das noites de Verão teimar em abraçar-me.

Ass: EU

Saturday, May 19, 2007

Pedro e o primeiro beijo

Pedro, 11 anos e todas as palpitações hormonais que isso implica. Olhos verdes, um cabelo loiro desalinhado que já devia pelo menos três meses ao barbeiro. Franzino e reguila, tinha sempre a resposta na ponta da língua. Era assim que hoje eu me definiria.
Já lá vão largos anos, mas se há coisa que não esqueci, foi o meu primeiro beijo e tudo o que ele me fez sentir.
Ana, 11 anos, cabelo muito negro, comprido, olhos grandes e expressivos. Magricela. Tinha uma pele muito branca, lembro-me que cheirava sempre a sabonete. Morava lá para os lados do Alto de S.João e tinha um sorriso lindo.
Julgo que era o último dia de aulas, e foi também a ultima vez que a vi. Achava-a engraçada, e tinha por ela uma paixoneta, que acho era correspondida. Depois do “toque de saída” fomos para o jardim da Madre de Deus. Era-mos um grupo de seis, três rapazes e três raparigas. Os outros quatro perderam-se na minha memória para sempre, a Ana ficou e permanecerá até ao fim.
Já não me lembro do que desencadeou o beijo, e a única razão que me ocorre para o termos dado, foi por ser o ultimo dia.
Coloquei-lhe as mãos na cintura e ela colocou as dela sobre os meus ombros. As nossas cabeças aproximaram-se num misto de medo e insegurança… e os nossos lábios tocaram-se, os dela eram secos mas macios, nunca tinha achado nada tão estranho mas ao mesmo tempo agradável. Depois, talvez movidos pelas influências televisivas, as nossas bocas abriram-se, sem saber bem porquê, uma vez que dentro delas nada mais aconteceu, mas se era assim que faziam na televisão…
Depois chegou o autocarro, e até hoje nunca tive oportunidade de dizer à Ana que já sei afinal para que servem as bocas coladas e abertas, e o que acontece dentro delas.
Para a Ana: Se algum dia leres isto e ainda te lembrares daquele Verão de 81, depois de ter-mos saído da Verney, fica a saber que te fiquei a dever um beijo em condições. Digo-te depois o que acontece dentro das bocas.

Ass: EU